domingo, 3 de junho de 2012

poemas de André Sztutman




I.

a pedra é o porto do tempo

o tempo
senta no tempo
que senta no tempo
e isso é uma pedra.

concentra os ventos
marítimos
pressiona planícies
imanta peles mortas.

indícios na pedra:
todos os ritmos
todas as síncopes
todos os sons
somem - pra onde vão
depois que soam?
Vão para a pedra.

o tempo é um ponto

II.

o oceano assopra
põe limo nas pedras
e põe metabolismo nos portos
e põe cumes na terra
e põe homens a completar olhares
com carnes
com couro
com cidades

e culturas

que são pedras assopradas
tempos sentados
e cheios de metabolismos águas

*

ANÚNCIO

I.

o que fazer?
a lingua é vasta
e dela detenho apenas
a sorte de habitá-la na extensão de meu corpo.

a vida não basta
a lingua é vasta.

e, não sei como, ainda me pedem,
seguros de que estão certos,
para que eu me furte dessa pequena extensão de língua
que me foi dada tão fortuitamente.

já somos tão inábeis 
dentro das nossas possibilidades
de habitar a língua em toda sua extensão...
mas querem
obstinadamente
que a vida baste
e me dizem não.
negam-me essa auto-percepção de ser pequeno
e inábil.
para tanto, se usam de
habilidades vãs 
e grandezas, menores que a pequenez do corpo.

o corpo furtado
tem sido a empresa dos homens.


II.

Me detenho um instante sobre essas palavras aqui escritas

esse anúncio
ainda não é poesia.

*
no meio de uma curva perigosa


às vezes a gente vai por curvas perigosas em alta velocidade
e nos descobrimos arenosos, ásperos
no meio de uma curva perigosa

às vezes, enquanto vôo
sinto números nas minhas costas
fazendo cócegas
girando mundos que vivi e não vi.

Às vezes, em alta velocidade, já perto da estratosfera
com cristais de gelo nos olhos
me bate uma certeza doida
de me sentir uma parede de corais
que estivesse o tempo todo em baixo d’água
num recife.

Às vezes alguém toca piano dentro de mim
harmonias largas, quase separadas
unidas por uma linha fina quase transparente
que se estende indefinidamente
tal qual horizonte dentro de mim.

As vezes
agente vai
por curvas perigosas
em alta velocidade

*

amor



O amor é um deserto que se estende à frente do determinado
é quando o tempo se perde no gosto de alguma coisa
é quando se sente um gosto além da coisa
e se consente a coisa de vários lados

O amor é uma geometrização em que a gente explode
é profanar as máscaras
e sabotar as máquinas
contínuo rolar de pedras

É mergulhar no íntimo e encontrar o ridículo.
e brincar com ele
caindo
espirando sangue na terra.




Jornal Tópico




Metalogo-grafia


André é artista plástico, nascido em 1986. Fez FAAP, tendo se formado ano passado; vive em São Paulo. Alguns de seus trabalhos guardam uma relação muito próxima com a escrita, como os Jornais Tópicos, nos quais cobria notícias de jornal formando composições visuais e as metalogo-grafias, inspiradas nos metálogos de Bateson, e resultadas de aulas que ele mesmo ministrava sobre assuntos relacionados a arte - sua feitura se dava no decorrer da aula, e fazia parte dela.


postagem de Bruno de Abreu

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

victor paes, entrevista


#
1. Victor Paes, alguma angústia técnica lhe tira o sono?
Bem, eu tenho uma certa dificuldade de pensar técnica como algo palpável demais no processo de criação. Tendo a entendê-la mais inserida em uma organicidade, que é fruto de um misto de predisposição para a coisa e de trabalho. Nesse organismo se metaboliza ao mesmo tempo tudo o que acaba convergindo numa obra. Eu sinto angústia muito aí, quando penso no quanto o trabalho está sendo ou não suficiente para alimentar a predisposição. E quando sinto essa angústia, a melhor coisa, que funciona sempre, é parar tudo e sentar para ler.

2. existem muitos poetas no Brasil?
Existem. O problema é que as dificuldades para a poesia, de todos os tipos, existem em uma quantidade proporcional. Isso acontece desde o ensino da poesia. A escola faz parecer que ler poesia é muito difícil e que escrever é muito fácil. Parece que, tanto para ler quanto para escrever, é só se concentrar no pouco que vemos dela na escola – sua funcionalidade, mais especificamente sua função emotiva (uma função legítima, veja bem, como qualquer outra, mas que não sobrevive sozinha), extraída quase à força de um mesmo grupo de seis ou sete poetas. Alguns passam a vida toda sem sair disso, mesmo após se ler e se publicar muitos livros. Mas os que são pinçados pela poesia de um modo mais sério correm por fora, buscam, enlouquecem e esses acabam vivendo a poesia mais seriamente. Esses já nem são tantos assim. Mas, claro, isso é só a ponta óbvia do iceberg. Quanto à escrita, mais especificamente, no fim não existe uma fórmula que defina alguém como escritor. Como ouvi outro dia do Raimundo Carrero, os escritores estão todos é no mesmo barco.

3. Victor Paes, poesia é arte? me desculpe a confusão, poesia é literatura?
Essa confusão é interessante. Porque se a poesia acaba, teoricamente, banida sempre para a margem da própria literatura, quanto mais da arte como um todo. Por isso é tão curioso o movimento que ela está fazendo em direção a uma reaproximação com as artes, cada vez mais no palco, em contracena, ao ponto de abdicar, muitas vezes, até das palavras. O que mostra que na verdade a poesia está acima de qualquer banimento, que ela pulsa sempre, mesmo quando lhe dão extrema unção. Inclusive quando no próprio papel.

4. Victor Paes, vc aspira um Brasil-civilização? quais suas inquietações políticas? vc se importa com política?
Teoricamente, se a política é uma mecânica que tem a todos como engrenagem, é impossível não se importar com ela, mesmo que seja através de nossa negligência. Tenho que reconhecer que às vezes tenho menos paciência do que deveria em acompanhar essa mecânica, principalmente a brasileira. Mas como política não se resume apenas à partidária, não há como um artista ser apolítico em sua obra. Fazer arte é um ato político por excelência.

5. e a mística? vc pensa nas coisas do transcendente?
Olha, já pensei mais. O complicado de pensar no transcendente é que isso já é desde o início um dar murro em ponta de faca. Sou mais pelo não pensar budista. Agora, nunca deixo de sentir espiritualidade nas coisas, em tudo. Principalmente na literatura.

 6. o q é isso de uma escrita (ou poética) fora dos gêneros? q território incomum é esse?
Olha, acho difícil dentro de um gênero não se ver elementos de todos os outros. Definimos um gênero agrupando alguns elementos que elegemos como comuns e excluindo outros. O que acontece hoje é uma tendência a cada vez mais desfazermos esses paradigmas. Esse território incomum torna-se cada vez mais comum. E isso é muito saudável.

7. qual conselho vc deixaria para um jovem poeta?
Conselho parece sempre uma afronta. Porque sempre tira quem o recebe de sua zona de conforto. Então acho que até posso falar por aí: um conselho, desconfiar sempre de sua zona de conforto. Achar sempre que quando a coisa se torna fácil demais, algo está errado. Achar sempre que nunca se leu 1% do que se deve ler. Que nunca se agiu 1% do que se deve agir.


Victor Paes é escritor, ator e editor da Confraria do Vento. Publicou os livros de contos Deus ex machina (Confraria do Vento, 2011) e Mas para todos os efeitos nada disso aconteceu (Dulcineia Catadora, 2010), além do livro de poesia O óbvio dos sábios (Confraria do Vento, 2007). Tem publicados seus contos e poemas em diversas revistas e sites. Participou das coletâneas 24 letras por segundo (Não Editora, 2011), organizada por Rodrigo Rosp, e XXI poetas de hoje em dia(nte) (Letras Contemporâneas, 2010), organizada por Priscila Lopes e Aline Gallina. Publica o blog www.victorpaes.blogspot.com


postagem de gilson figueiredo

domingo, 4 de dezembro de 2011

poemas de João Lima





início

Escrever é frio e difícil.
É como a vertigem que se tem
de um alto edifício
visto de baixo pra cima.
E o contrário: ânsia de precipício.
É perder um pouco a vida
na esperança de voltar ao início
onde tudo era fábula
onde tudo era indício.

*

grafite

 garatujo no papel branco
e cúmplice
nele tua esquecida
feição se esboça
sem razão de ser
risco tua boca
folha caída de maio
seiva terra carbono água-forte
que tento colar à minha retina
árida de matizes
de tecnicolor
como cada palavra
numa frase inteira
poema que no escuro a mão não
escreveu

*

um pouco de calendário
ainda paira sobre
as coisas: no cochilo
da velha amendoeira
por exemplo
alheia ao ir e vir das estações
na placidez dos móveis da sala
no descanso dos motores
e dos eletrodomésticos
na poeira
de um retrato velando
sobre o criado-mudo
um tempo que não volta mais
no cheiro da comida
que se faz para quem
há de partir

*

Que inexplicáveis as pessoas.
Caminham para onde nesta avenida?
Esta avenida
— sem fim —
vai dar num antigo porto
onde a cidade é mais linda.
Nesse porto (nesse porto
eu eterna criança quisera estar)
o mundo acaba em pássaros e
contêineres.

*

amo também
tua falta

tua disciplinada
e voluptuosa

ausência

#

João Lima tem 23 anos e é jornalista de primeira viagem. Tem um livro publicado, a coletânea de poesia Cartilha. Um conto na antologia A polêmica vida do amor, recém lançado pela editora Oito-e-meio. E três poemas no jornal literário Plástico Bolha. Mantém o blog Para folhear.



postagem de Bruno de Abreu