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Dentro dum livro de Mourão-Ferreirat
1.
Se a perfeição
Fosse uma ínfima parte da poesia
Seria poeta
Apenas pelo lado da fantasia.
E se as flores, como a felicidade
Desejassem ser para sempre
Um poema simples
(secreto meio-dia
Deste dia de namorados)
Feliz da felicidade
Feita por estas flores, esta poesia
Da minha idade, este distinto dia.
2.
Imagina tu,
Que a vida nem é um grande rio.
Senta-te, sorri e
Imagina tu
Que coloco a flutuar
Um barco de papel em branco.
Imagina, que sigo e perco de vista
O barco em papel, só porque fico sentado
Eu a observar o que ele flutua.
Imagina tu,
Que deixo uma pedra nesta margem
E lanço-me por esse rio, só porque quero flutuar,
Também.
Este rio corre, e eu como ele
E olho para trás e para a frente
E não medi as consequências deste flutuar,
Nesta pequena perspectiva de viver.
Imagina tu
Que te levo comigo neste pequeno sossegar,
Neste pequeno saber, sentir o rio a correr
Sem ficar parado a observar
Ou o que poderia acontecer.
Ou seja, imaginar
Que a vida não é apenas um rio que passa,
Mas por viver
O único em que podemos mergulhar.
Almada, 14 de Fevereiro de 1992
(…)
Talvez que nos calendários antigos
Talvez que nos calendários antigos
Se encontrem as ínfimas respostas
Para os ritmos da vida,
Para a beleza dos cânticos quase gregorianos
Das cascatas,
Mas hoje,
Procuramos certamente, algo menos.
Nos calendários,
Passas os dedos pelos números que marcam
As divisões dos meses;
Apenas os dias, os meses
E dantes
As luas e as colheitas,
O ritmo da vida e das marés.
Dá-me prazer,
Fugir do tempo e sorrir,
Como se promessas de dias pequenos
Fossem fugas bem preparadas,
Para partir.
Antes,
Se desafiadas as leis da física e das outras coisas
Pouco importantes, não nos preocupavam
O ser, e como tal o existir.
Essas coisas deixam-nos melancólicos:
Há muito que deixei de ser,
E até de existir,
Segundo as leis dos calendários e dos relógios
Antigos.
Sobrevivo
Porque bate o teu coração
No meu.
|sem data|
(…)
Só no silêncio se movem todas as coisas, finitas e infinitas
Só no silêncio se movem todas as coisas, finitas e infinitas.
Só assim os desígnios do meu corpo revelam o Ocaso e o Nascente,
A Terra firme e a Areia, as Nascentes, o Oceano mais profundo.
Disperso é a medida de que se faz o meu olhar único
Que só no mais profundo sulco terreno se dilui e brilha.
Dispersas as Árvores levemente tatuadas de sombras intemporais,
Sombras crescentes dos Dias, filhas recentes do Zénite e do Nadir.
No longe se equilibra a mais vazia distância,
O descobrir na minha, a tua mão de dedos desiguais.
Porém, se a Luz e a Névoa não são pertença do meu corpo dormente
É como se nada existisse. Nem Fogo, nem esta Cruz, nem o Mundo.
E se ao vazar da maré na praia mais distante, o meu coração fizer sentido,
Esse limite da minha voz jazente, encontrará no silêncio o seu inicio e fim
Então dormitará quase perdida, o resto de toda a minha memória insuficiente.
Vilamoura, s/d
(…)
Das Variações para um Cravo Antigo
à Ana Mafalda Castro, pela inspiração
Cravo de céu
Cravo de espinho
Crava a tua mão na minha.
Que tocata essa de teu cravo,
Que no amplo céu deste salão
Sala e quarto, vasto jardim
De alma enfunada ao vento,
Escuto e atento, na tua mão
Que em silencioso movimento,
Domina essa tecla quase adormecida.
Bela, a ordem natural,
Cravo quase pecado original,
Harmonia com o travo do vinho,
Aroma e harmonia, cave do mundo.
Obra tento e fantasia
De Cinco Kyrios tomadas do cálice
Da flor do craveiro, por tuas mãos
Silencio de onda em alto mar
Capa e contracapa de cravo
Que rodopia gira e dança
Entre os dedos teus e a harmonia
Da mais intima batalha, o original tom
Da criação. Tento de meio registo
Registo do mais alto véu, cravo
Cravo acúleo,
Cravo da terra aqueira,
Crava a tua mão na terra que se lavra
Enquanto a minha adormece na letra que se consome,
Desagua no céu nocturno, a palavra,
O risco cravo de espinho.
Castelo Rodrigo, 11 de Novembro de 2009
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Navegar é Preciso
Abandona o teu silêncio,
As palavras que decoraste
E os grãos de terra fáceis de contemplar.
Os versos acima, uma bela exortação à originalidade, são extraídos de um dos posts de "A última estação de Ricardo S., de Leonardo B. A partir de Colmeal Velho, em Portugal, o autor dispara, em três blogues, sua verve poética, produto original de um liquidificador lírico em que se misturaram essências de Dylan Thomas, Robert Frost, Emily Dickinson e Pessoa, entre outros ingredientes não menos grandiosos. Gostei sobretudo da extraordinária capacidade de Leonardo B. de se apropriar liricamente da paisagem exterior para lhe dar um sentido interno. É poesia muito acima da média, ditada por uma notável inquietação existencial a um talento irrequieto, sob a supervisão de uma alma poderosamente lírica.
De Márcio Almeida Júnior aqui
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viver não é necessário, o que é necessário é criar.
primeiro pelo seu blog, depois pelo myspace, iniciamos diálogo que não resisiti ao convite rapidamente aceito & acolhido: me antecipei uns minutos ao uníssono postando poema no 3ª Navegação, do poeta eleito que já disse não querer ser moderno.
de fato teriamos antes até tal postagem não fosse a dificuldade -- não geografica, ao que vocês sabem, ele é português -- senão por quem faria a nota introdutória que oxalá, 1 amigo já havia feito, alhures.
votos sempre fazemos aos montes. esse, p. ex. deseja laços posteriores, à terra de fernando pessoa que amamos & lamentamos a falha da academia sueca: tabacaria não é o poema do século?
ao poeta, sigamos!
postagem de gilson figueiredo

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